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Doutor Dalton
 




Escrito por Joao às 21h57
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LEMINSKI (ENTREVISTA PARTE 1)

 

 

Ele já se autodefiniu como “a besta dos pinheirais”. Ex-seminarista, ex-professor, músico, poeta, crítico, Paulo Leminski é o próprio intelecto em ebulição. Besta ou não. Polêmico ou não. Contraditório ou não. Criativo.

 

Vendi meus filhos/Pra uma família americana/Eles têm carro/Eles têm grana/Só assim eles podem voltar/E tomar sol em Copacabana”

 

De repente, o autor destes versos, o poeta paranaense Paulo Leminski, deixou o quase anonimato em que se encontrava, apesar de longos anos de batalha, para se tornar uma das figuras mais badaladas da nossa intelectualidade. Suas canções, gravadas por Caetano Veloso, A Cor do Som, Ney Matogrosso e outros, deram-lhe fama nacional e condições de abandonar a profissão de redator de publicidade. Seus artigos começaram a aparecer nas principais publicações do País. A editora Brasiliense acaba de lançar um volume sobre Cruz e Souza de sua autoria (e que já começa a gerar polêmica), prometendo para breve as suas “poesias completas”.

 

Neto de negros e imigrantes poloneses, ex-seminarista, ex-professor de cursinho, avesso a frescuras dos meios pensantes oficializados, Leminski já foi considerado “um tipo esquisito” e se autodefiniu como “uma besta dos pinheirais”. Em Curitiba, onde nasceu há 38 anos, o poeta vive numa modesta casa no tranquilo subúrbio Cruz do Pilarzinho. Tem um estranho prazer: ler originais em russo, latim e mais sete idiomas. Aprendeu japonês para experimentais hai-kais do jeito que nasceram. Já lambuzou muros da Capital com grafitis como “o torto tem direito”.

 

Casado com Alice Ruiz, também poeta, tem dois filhos, é faixa preta de caratê, admira Trotski e critica o socialismo atual (“houve uma apropriação indébita desta palavra”). Com 18 anos, Leminski publicou seus primeiros versos na revista “Invenção”, justamente o mais importante órgão de divulgação do concretismo. Editou por conta própria, em 1975, o “Catatau”, um livro em prosa de difícil digestão. Lançou em 1980, edições caseiras de seus poemas (“Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase” e “Polonaises”).

Participaram da conversa (e das cervejas), além de Alice Ruiz, as repórteres Márcia Marques e Rosana Bond, da sucursal de Curitiba.

 

 

Paulo Leminski sempre foi considerado uma espécie de poeta maldito. Seu trabalho era conhecido apenas por grupos que faziam poesia de vanguarda. De um momento para outro, vira trilha de novela, nome nacional, como foi isso?

Realmente, eu tinha uma espécie de miniprestigio. Meu trabalho era considerado de vanguarda e apenas um grupo de criadores importantes tinha conhecimento, como é o caso do Domingos Pelegrini Jr, no Norte do Paraná. Aí o Caetano gravou “Verdura” e a fama, que era restrita, se espalhou. A coisa toda me apanhou muito de surpresa. Tem aquela história do cara que está trabalhando há 10 anos, levando fita para gravadora, essas coisas. Mas para mim não se passou desta forma. Foi tudo muito brusco. Eu era um poeta escrito, como ainda sou fundamentalmente um homem de livros. De repente aconteceram coisas na área do disco. E música era uma curtição minha. Sempre fiz canções para mim e para os meus amigos mais imediatos, mais para a minha satisfação. Nunca imaginava que isso pudesse se transformar em mercadoria. Estou vivendo só disso. Larguei a publicidade.

 

Deve ter sido muito interessante o dia em que você conheceu o Caetano. Conta como foi...

Aconteceu o seguinte: o Caetano entrou em contato com o grupo concreto em São Paulo, com o qual eu tinha contato há muito tempo. Aliás, não conheci até hoje outro grupo na poesia que me merecesse mais respeito. O grupo já tinha relações com o Caetano desde a época do Tropicalismo. Quando saiu o Catatau em 1975, o Caetano soube através do Augusto de Campos. Quando veio a Curitiba, pouco depois, trouxe o meu endereço. Ele me procurou. Na época, eu morava no bairro das Mercês. Naquele dia, eu estava até andando em cima do muro e de repente vi parar um carro ali do lado. Aí saiu do carro um cara magrinho, cabelo assim em forma de coração e tal... olhei: era o Caetano. Pensei: estou maluco. Não pode ser. Mas era. Estreitamos uma amizade e cada vez que ele vinha para cá, a gente se reunia na casa do Helinho Pimentel e outros amigos e ficávamos tocando e trocando músicas. Depois, o Caetano falou com Gil e aconteceu isso também. Mas um dia mostrei três ou quatro canções minhas. Ele se amarrou em “Verdura” e me falou: no próximo disco vou gravar esta música. Gravou mesmo. A partir daí, abriram-se todas as portas. Pintou a Cor do Som, Moraes, Paulinho, agora o Ney e vai pintar também a Rita Lee...

 

Isso é novidade. Dá detalhes para gente.

No show dela no Ibirapuera, em São Paulo, ela me pediu quatro letras. Joguei na mão dela e até o final do ano deve sair alguma coisa minha e da Rita. Um barato.

 

A Música Popular Brasileira de uma maneira geral está ruim? Blitz, Neusinha Brizola, o que você está achando disto tudo?

Acho que a classe média está dando condições para os filhos comprarem discos muito cedo. Isso faz com que a criançada torne-se influenciadora do gosto. Se vocês notarem o gosto que impera hoje nas rádios brasileiras é um gosto que corresponde a um nível mental e emocional entre os 12 e 15 anos. O que tem de música falando assim: “O meu primeiro beijo...” (risos)... “o meu primeiro namorado” e por aí afora. Ou então é o deslumbramento, a descoberta do sexo. Como existe uma crise econômica, a indústria fonográfica investe naquilo que dá retorno imediato sem se importar com qualidade. Então é aquele processo darwiniano da música... Diante de imbecilidades como Neusinha Brizola e Rádio Táxi, quando você ouve um Ismael Silva, por exemplo, vem aquela sensação de alívio diante de boa música, poesia. Acaba ficando a opção dos coroas: Caetano, Gil, Milton Nascimento, Chico... De repente até Gonzaguinha e Ivan Lins dá para ouvir numa boa porque é melhor do que o que a garotada está fazendo. Tem uma coisa aí que fez sucesso recentemente, que é assim “Dá... Dá... Dá...”. Isso aí já é para nível mental de três anos e eu tenho medo de que continuem regredindo. A gente vai ter que comprar os velhos de sempre.

 

 A produção independente seria uma saída?

Não acredito. Aliás, produção independente só existe por necessidade, porque ninguém gosta de ficar nessa. São caras que não conseguem gravadora, só isso. É como poesia marginal. O cara está no banco de reservas, louco para entrar. Se pintar a chance, entra e quer jogar pra valer. O Arrigo Barnabé, que era o principal criador desta chamada produção independente, está contentíssimo porque acaba de assinar contrato com uma gravadora, a Ariola, que vai gravar o disco dele, investiu milhões. Ele vai ter músicos a disposição, estúdios, mixagem em Nova York, tudo direitinho.

 

Você disse recentemente que os maiores poetas do Brasil atualmente estão nos discos e não nos livros...

Na verdade, foi uma frase de efeito, uma maneira exagerada de chamar a atenção para alguma coisa que as pessoas não estavam percebendo.

 

Você se diz um homem dos livros. O que está acontecendo nesta área?

Estou em ótimas relações com a Brasiliense, que editou o Cruz e Souza e deve lançar minhas poesias completas até o final do ano naquela coleção “Cantadas Literárias”.

 

E o romance “Minha Classe Gosta, Logo....”, que você estava preparando. O que houve com ele?

Não houve.

Desistiu?

É... A novela ficou pronta. Mas aquilo lá não me interessa no momento. Seria mais ou menos outro livro daqueles: como foi difícil viver no período Médici. Acho que isso já encheu o saco. Imagens do mal, enfim, melhor é deixar para trás, já disse o Gilberto Gil na “No Woman, No Cry”. Aquela literatura lamentatória: como eu tive que ser exilado, como apanhei na prisão... isso torrou mesmo. A sociedade brasileira está em outra. A esquerda está no poder em diversos lugares. No Rio, o governador é o Brizola. Não dá mais... É página virada. Vamos ficar a vida inteira com coisas assim como: fui torturado no Doi-codi, porque o Fleury não sei o quê. O papo ficou... ficou limitado demais.



Escrito por Joao às 17h16
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LEMINSKI (ENTREVISTA PARTE 2)  

A coleção “Encanto Radical”, da Brasiliense, tem lançado livros sobre figuras tão distantes entre si com por exemplo Pasolini e Noel Rosa. De repente, surge Paulo Leminski, um poeta concreto, falando sobre o simbolista Cruz e Souza. De onde pintou a ideia?

Na verdade, a Brasiliense me procurou para fazer um volume sobre um líder dos beatniks americanos. Eu disse que não entendia nada de breatnik e nem tinha interesse. Eu queria mesmo era escrever sobre o Cruz e Souza. Eles toparam. Aliás, a coleção tem cerca de 24 volumes lançados e só três personagens são brasileiros: o Noel, o Osvaldo de Andrade e agora o Cruz e Souza. O resto é Hemingway, Eisenstein, etc.

 

E a descoberta do Cruz e Souza, como foi?

Trata-se de um velho culto meu. Sou curitibano e o simbolismo teve aqui uma florescência maravilhosa no início do século. Por volta de 1900, 1910, Curitiba era a cidade intelectualmente mais importante do Brasil. Aqui era o foco, o centro do simbolismo no País. Editavam-se aqui sete revistas simbolistas em 1906. E quantas revistas literárias temos hoje? Está certo que nesta época havia uma implosão, algo assim de minoria, era uma efervescência no interior de um grupo, mas para a qual não temos paralelo atualmente. Hoje, Curitiba é uma cidade brochada, sem graça. Antes não. A cidade era culturalmente muito mais séria.

 

O que se produzia aqui?

Emiliano Perneta, Dario Veloso, Júlio Perneta, Silveira Neto, Nestor Vitor... Cruz e Souza vinha para cá. Os simbolistas de Santa Catarina vinham para cá editar as suas coisas. Aqui houve um boom tipográfico no final do século que coincidiu com o boom industrial ligado ao ciclo do mate. A colonia alemã, que sempre foi muito dinâmica em Curitiba, tinha necessidade de fabricar pacotes para embalagem e teve de importar máquinas impressoras da Europa. Eram parques tipográficos disponíveis. O Dario Veloso, grande poeta paranaense do início do século, foi tipógrafo na adolescência. Curitiba era a meca gráfica de catarinas, gaúchos e até paulistas. Esta idade de ouro, em termos intelectuais, a cidade nunca mais recuperou. Deste grupo nasceu a Universidade do Paraná, que é a primeira do Brasil. Antes só existiam faculdades. E a primeira com circuito completo, de Medicina a Direito, foi aqui. Não foi Rio, São Paulo, Recife. Isso é uma riqueza cultural que o Paraná tem atrás de si.

 

E o Cruz e Souza?

É uma velha admiração. Uma paixão de anos. Quando conheci o negão já me apaixonei. Achei que ele nunca teve o reconhecimento que merecia. E o livro é uma tentativa de mostrá-lo para o Brasil. O Cruz e Souza é um valor muito mais do Sul do que muita gente imagina. Eu falo, apresento para os meus amigos baianos, por exemplo e eles dizem: parece que é um poeta negro, de Santa Catarina, não é? Ninguém conhece.

 

O livro acabou de sair e uma das críticas mais sérias é a de que você utilizou-se de uma espécie de racismo ao contrário...

O racismo implantado aqui pelos portugueses é muito forte. Não gostam de ver devolvida a bola, né? Pois foi o que eu fiz... O livro está começando a viver agora. Teve uma repercussão na “Isto É”, saiu na “Veja”. Mas não me importo muito com o que dizem. Estou com o Mick Jagger: o que importa o que estão falando de você na página 47, se você está na capa? Ninguém mete o pau no que não existe. O espaço custa caro. Eu sei porque sou resenhador de poesia para a “Veja” e eles me mandam 4 ou 5 livros. Olho e digo: bobagem, besteira, não interessa... Aí me interesso por um deles: vou lá e meto o pau. Se estou falando do livro é porque ele tem importância. Se não tivesse, nem aparecia na “Veja”. A ideia de falar bem ou mal acabou. O meio é a mensagem mesmo...



Escrito por Joao às 11h44
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LEMINSKI (ENTREVISTA PARTE 3 - final)

A gente estava falando do racismo ao contrário...

O preconceito lusitano foi muito bem articulado. São 400 anos para montar uma máquina. E o esquema vai desde a negação do valor intelectual e artístico, até o cúmulo da negação da beleza física do negro. O negro de repente é feio. O cabelo carapinha é cabelo ruim. Cabelo ruim por quê? Aí os descendentes vieram e disfarçaram, disseram que não existe preconceito racial. O Gilberto Freyre vem lá e diz que a situação é mais ou menos boa, que é negócio de pai para filho. Mas nós sabemos que o regime foi de violência institucionalizada contra toda uma raça. Trouxeram o negro a chicote da África. A resistência. Tem um capítulo inteiro sobre isso. Como o negro conseguiu preservar sua raça, o que o índio não conseguiu. Mas não dá para comparar. O índio era algo assim de um nível mental entre a capivara e o ser humano. Já os negros que vieram para o Brasil pertenciam a uma área da África que tinha verdadeiras civilizações. Tinha escola, eles liam o Alcorão. Liam em árabe. Ai vieram para cá como escravos, comprados por um joaquim ou manuel que eram analfabetos e foram penar nas senzalas. Eram figuras superiores aos brancos intelectualmente, mas os portugueses ocultaram isso cuidadosamente através dos séculos. Negro só servia para segurar enxada. Agora você fica sabendo que o negro era culturalmente superior aos portugueses. Como fica? Já recebi o apoio de muitas entidades negras. Teve até um sambista, o Ney Lopes, aquele que fez a música (cantarolando): “Na tina, vovó lavou/A roupa que mamãe vestiu/Quando foi batizada”. A Clara Nunes canta... Ele é um intelectual negro que conhece bem a transa. Me mandou uma carta carinhosa, por causa do livro, me chamando de nego Leminski. Aliás, é assim que Narciso Assunção me chama...

Ele seria o ator do seu filme sobre Cruz e Souza, não é?

Este mesmo. É o meu Cruz e Souza. Mas ainda sobre a repercussão, a Brasiliense também recebeu cartas de associações agradecendo a força que o livro deu. Em compensação, estou recebendo críticas de professoras universitárias... brancas... não vou citar nomes, falando justamente num racismo negro que haveria no livro. Enfim, o Cruz e Souza está começando a mexer em uma célula muito dolorosa e dolorida da sociedade brasileira.


E o “Catatau”, um livro que despertou polêmica tanto pela forma quanto pelo conteúdo, tem algum plano de reedição para ele nos próximos 10 anos?


Estou pensando numa edição nacional. Vai acabar acontecendo. Tem um cara aí, um uruguaio, que me telefonou. Ele está editando uma coleção de literatura latino-americana no Uruguai e escolheu dois livros brasileiros. Um deles era o “Catatau”. Ele levantou o problema da tradução e eu expliquei que não tenho tempo e nem sei se conseguiria. Aí eu disse: porque não em português? E pode sair um livro em português, editado no Uruguai, dentro de uma coleção dedicada à literatura latino-americana.

Tem muita gente fazendo poesia no Brasil. Na sua opinião, como está o nível?

Acho que estamos num tempo fraco. Como na música, para se fazer o ritmo, tem tempo forte e fraco. Não quero dizer que a produção não tem valor. Com a ditadura, a repressão e o esvaziamento da inteligência brasileira, estamos vivendo um tempo fraco. A geração imediatamente anterior é extraordinária. Produziu um Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Reinaldo Jardim, Glauber Rocha, Zé Celso Martinez (no teatro), Hélio Oiticica (nas artes plásticas). É difícil segurar isso aí. Me pergunto se a minha geração vai produzir algo para se comparar com o que fizeram os coroas. Eles estão aí na faixa dos 52, 53 anos. O jornalismo produziu um Paulo Francis; a música, um João Gilberto. É dose! Mas, da poesia de um modo geral eu gosto. Raro é raro. Ninguém faz obra-prima toda segunda-feira. Nem aparece gênio todo dia.

 

Os movimentos como o concretismo desapareceram. Existe algo para ser levado a sério hoje em dia?

Os movimentos não têm mais razão de existir. O único papo dos anos 70 foi a tal de “poesia marginal”, inventada pela dona Heloísa Buarque de Holanda. Ela arrebanhou um grupo de poetas que se caracterizava por uma dificuldade de editar a poesia e de certa repugnância pelos meios universitários... Mas não se pode comparar estas pessoas com os poetas da geração anterior. Eles não tem o nível de conhecimento, nível artesanal, nível de profundidade. É uma poesia pobre, de consumo rápido, tipo modess, papel higiênico, latinha de cerveja...

 

E a poesia pornô?

É uma ramificação da chamada poesia marginal. Só faz sentido no nível infanto-juvenil, quando o cara descobriu o sexo. Descobriu a ereção. Olha: fica duro!... A mulher descobre o orgasmo, o sim ou não. Uma coisa que corresponde a uma mentalidade de 13 ou 14 anos, depois vira bobagem. Uma poesia cuja característica principal é botar no papel o nome das partes... partes pudendas (gargalhadas geral)... É isso aí. Partes pu-den-das. Gozar, tesão, etc. Faz um poema chamado “Tesão” e pronto, você faz parte do grupo da poesia pornô. Uma criançada dizendo palavras que papai proibia. Mas, uma vez ditas, as palavras perdem a graça. Não dá para ficar cinco anos repetindo. Sexo enquanto sexo, é uma coisa ligeiramente tediosa. Como filmes de sacanagem. O primeiro dá certa emoção. Mas se você assistir a 10 filmes pornô um atrás do outro... A pornografia tem vida curta. Como o palavrão. O primeiro cara que botou palavrão no teatro é um gênio. O segundo que o fez é um imbecil (risos)... Aliás, sobre poesia pornô, o Eduardo Kack, um dos porta-vozes, me escreveu para dizer que a “tchurma” não tá mais nessa...

 

Descobriram algo novo...

Isso não revelou. Tenho dúvidas. Talvez seja drogas, começaram a beber, não sei...

 

O que deveria ser feito pelo poder público, não sua opinião, na área cultural?

Você acredita no poder oficial? Eu nunca precisei do Estado para porra nenhuma. Meus livros, sempre editei com grana do meu bolso. E agora vou editar por uma editora de São Paulo. Jamais recorri a secretarias ou fundações. Pra mim, não existem. É um treco soviético, esse negócio de patrocínio do Estado.

Se o concretismo fosse ficar esperando verba do Ministério da Educação, não teria existido. Os caras ficaram 30 anos lutando. Diziam para a mulher: olha, esse mês não dá para comprar o sapato que tenho que tirar uma plaquete com uns poeminhas. Agora estão afirmados, trabalho reconhecido na Bélgica, na Alemanha. Eu acho mais digno assim. Nunca precisei do Estado, nem precisarei. Não me interessa o programa do Richa. O papel do Estado é com o Estado. O meu é o papel do intelectual. Ele passará, eu não. O que estou fazendo é mais duradouro que Richa e Nei Braga. O intelectual, os artistas, tem que mandar à merda o poder público.

 

Na sua opinião então não deveria existir uma Secretaria da Cultura?

Deve existir. Mas não para mim, Não tenho a ver com ela. Pode ser ótima para outras pessoas... Para mim tanto faz. Estou em Curitiba por razões de circunstâncias. Poderia estar no Rio, em Salvador ou Nova York. Estou aqui porque nasci aqui, minhas articulações são mais fáceis. Mas não dependo da Secretaria, da Fundação. Nada. Nunca editaram um poema meu. Botei Curitiba 13 vezes na “Veja” no ano passado. Seis vezes na “Isto É”. Uma vez na “Visão”. Fiz mais por eles que eles por mim.

 

Para que serve a poesia? É flor inútil? A arte tem utilidade prática?

Felizmente, a poesia não serve para nada. A burguesia criou um mundo em que tudo tem que ter um preço, tudo tem que ter um porquê, desde o século 18. Você não vai perguntar para um índio porque ele pinta o rosto, bota um cocar e fica dançando. Aquilo faz parte da alegria da vida. A arte tem esse papel.

 

Tem um valor próprio...

A burguesia criou um mundo à imagem e semelhança de seus negócios. Estes caras que defendem a arte engajada, participante, querem que ela dê lucro de alguma maneira. Mesmo que sejam de esquerda e pensam estar se opondo à burguesia. Tornam a arte como sabão em pó, a mesma coisa que um novo enlatado. Afirmo com todo orgulho: a poesia que faço não visa nada fora de si mesma. Nada além da qualidade dela mesma. Não pergunto se vai servir. Aliás, a expressão engajamento é usada na linguagem militar. Engajado é o cara que se alistou no serviço militar.

 

E a transa dos poetas russos, o Maiakovski, por exemplo.

Isso mesmo. Ele se debateu a vida inteira em cima disso e o pessoal exigindo engajamento. Era um grande poeta. Acabou como? Deu um tiro no peito. O suicídio do Maiakovski é a maior crítica que ele fez a toda aquela coisa lá.

 

O mal é o poder...

Olha, acho que o poder é coisa de segunda classe. Porque quem sabe faz, quem não sabe manda. Quem é incompetente tem que dar um jeito de mandar (risos). O poder é, portanto, uma coisa inferior.

 

(Entrevista feita pelo jornalista Nelson Capucho e publicada pela Folha de Londrina num domingo, 29 de maio de 1983)



Escrito por Joao às 11h42
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Escrito por Joao às 13h42
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