
O caso da boneca japonesa
A diretora do museu chamou o Elegância para resolver o caso, porque a boneca sumiu e os japoneses estavam nervosos. Eram vinte e quatro bonecas e na hora de contar, o funcionário do consulado contou vinte e três. A diretora não sabia de nada. No museu ninguém foi, ninguém viu. Virou caso de polícia. Elegância era um detetive cartesiano. Sem frescura, botava os olhos no ambiente e sentia o culpado pelo cheiro. Quando chegou, pediu para a diretora reunir os funcionários. Eles encostados na parede, Elegância os passou em revista, olhou bem na cara de cada um e tirou as suas conclusões. Sentiu o cheiro de culpado no ar. Mas precisava de um assistente e chamou um cara com cara de respeitável, o Fred Mercury, a cara do Fred Mercury, até no bigode.
Elegância perguntou:
"De quem você suspeita?"
Fred respondeu:
"Não tenho a menor idéia."
Elegância sorriu e disse:
"É o Paraíba."
O Paraíba era magro, cara de esperto. O Fred disse que não cogitou a hipótese. O Elegância falou com a diretora, suspeitava do Paraíba. Na realidade, a única coisa concreta que tinha, era o sorriso esperto do Paraíba. A diretora não ia com a cara do Paraíba. E estava nervosa com a história cair na imprensa e a coisa feder. Por isso deu com a língua nos dentes. Falou com o Paraíba:
"Olha aqui Paraíba, acho bom entregar a boneca."
Paraíba levou um susto e gaguejou. E quem gagueja confessa. Eles precisavam de um culpado e acharam. Mas o Paraíba era amigo da Conceição, que apesar de casada tinha um caso com o Aderbal. Ela falou com ele, que estava com pena do Paraíba e suspeitava que o cara fosse inocente. O Aderbal era o cara do circuito interno de televisão, detalhe que o Elegância passou por cima como um trator. E o Aderbal falou para o Paraíba.
"Se não foi você, tem que ter alguém na fita."!
Paraíba disse obrigado. Ficou na sala do Aderbal vendo a fita do circuito interno das oito da noite às três da manhã. A garrafa de café ficou vazia. Os olhos não ficavam abertos. Até que ele viu sombras, que o acordaram de vez. Um tipo tentava descolar as bonecas. A maior parte grudada com resina, mas umas três não. A Dinorá por preguiça achou que não precisava colar. E o tipo enfiou a mão na boneca, e botou a boneca no bolso. O Paraíba estava salvo. Faltava saber agora quem era o cara da fita. Estava de boné, mas tinha um bigode. O bigode do Fred Mercury. Na manhã seguinte, com os olhos inchados, Paraíba foi falar com a diretora. O Elegância olhou os olhos do Paraíba e sussurrou para a diretora:
"Queimou fumo a noite inteira."
A diretora sorriu. O Paraíba mostrou a fita do circuito interno. E os dois viram.
Elegância perguntou:
"Mas quem é este tipo?"
A diretora disse:
"Aquele que você chama de Fred Mercury."
Elegância olhou e não acreditou:
"Sacarolha!"
O Fred Mercury não gostava de trabalhar, chegava tarde e muitas vezes nem ia ao serviço. Tinha costas quentes. A diretora ligou para o tipo e ele negou. Quando soube que foi filmado, ele apareceu com advogado. Falou na maior cara de pau:
"Estava testando o sistema de segurança."
Ninguém acreditou. E o advogado propôs.
"Abafa o caso que a gente entrega a boneca."
A diretora não queria escândalo. Aceitou. O Elegância respirou fundo e disse:
"Mais um caso encerrado."
Quando estava saindo, Paraíba se aproximou:
"Seu detetive!!!"
Elegância parou. Sabia que o tipo ia falar em preconceito, era sempre assim! E, pior: teria de ouvir. Mas o Paraíba disse:
"Eu puxei a ficha do Mercury na Justiça: ele tem mais de dez processos por assédio sexual."
"E daí?"
"Porque o senhor foi com a cara dele?"
Aquela o Elegância não sabia explicar. Ele olhou o Paraíba e pensou:
"O que este tipo está pensando? Que sou homossexual?"
Mas não disse. O que ele disse foi o seguinte:
"Olha rapaz, não pense que é esperto. Tudo que aconteceu eu planejei. Este é o meu método."
E saiu andando duro. O Paraíba olhou, balançou a cabeça e voltou para dentro do museu. E ainda cruzou com o Fred Mercury, com a sua eterna cara de homem intocável.
A transformação

Numa certa manhã, depois de acordar de sonhos aterradores, Gregor Sendor encontrou-se num canto da despensa, transformado em um repugnante ser humano. Estava de barriga para baixo e, quando tentou mover suas patas, percebeu com horror que se tratava de dois longos e desajeitados tentáculos, cujas pontas exibiam cinco tentáculos menores. As patas inferiores se transformaram em dois rijos troncos, cuja função ele se esforçava em descobrir. Assim, sem as lépidas e finas patas, Gregor Sendor não conseguia se mover com a agilidade de antes e, tampouco, subir as paredes com elegância e eficiência.
"O que aconteceu?", perguntou para si mesmo.
A despensa era a mesma em que ele e seu clã se alimentavam. A transformação foi com ele. Com Gregor Sendor. E quanto mais olhava, mais se assustava. Em vez do ventre abaulado, com saliências arqueadas, tinha agora uma superfície grotesca, lisa e mole. Na parte superior do corpo havia uma esfera irregular, com saliências e cavidades disformes. No alto, uma espécie de finos fios de uma grama negra, cuja função desconhecia. Sendor percebeu que poderia mover um dos tentáculos em direção ao próprio corpo. Apalpou-o com horror e repugnância.
"Não há nada mais grotesco", pensou.
Mal acabou de pensar, um ruído estrepitoso saiu do interior do corpo pela parte inferior, agitando-o de medo.
"Será que vou explodir?", pensou.
Mas se tranqüilizou com a sensação agradável de alívio que se seguiu. Sendor pensou em chamar sua mãe e seu pai, mas não sabia como se comunicar com eles. Além disso, erguendo a esfera sobre a qual estavam os nervos óticos, notou que os pais subiam céleres a parede em direção ao esconderijo que habitavam.
"Eles me abandonaram", resmungou, não reconhecendo os grunhidos que saíam pelas cavidades superiores.
No entanto, olhou para o corpo e pensou tristemente:
"Eles não me reconheceram".
Os humanos eram cruéis com os insetos. Pisavam nos maiores, como os de sua família, para ouvir o estalo mortal sob suas patas:
"Crack".
Aos menores dispensavam tratamento ainda mais terrível, envenenando-os som substâncias químicas letais. Correr era uma defesa natural. E, agora, ele não era mais um inseto. Aquele pensamento o deprimiu. Não há nada mais terrível para um inseto que deixar de ser um inseto. Gregor Sendor notou que entendia a linguagem dos humanos. Ele ouviu uma conversa vinda da cozinha. Certamente era a dos humanos adultos que habitavam a casa, um homem, sua mulher e o filho, um caixeiro viajante de hábitos soturnos.
"Que há de novo no jornal, Franz?", perguntou a mulher.
O homem respondeu:
"Nada demais".
E acrescentou:
"Um acidente de trem matou centenas de humanos na Ásia, homicídios matam milhares por dia no mundo e guerras dizimam cidades inteiras. Além disso, o homem continua a devastar o planeta", disse.
"Do jeito que vai, em algumas décadas acabamos com isso", comentou a mulher.
"Não vai sobrar nem para os insetos", respondeu o homem, com bom humor.
"E agora?", pensou Gregor.
Esse era o plano dos humanos. E ele não podia fazer muita coisa porque, olhando para seu corpo, tinha a aparência asquerosa de um humano. Gregor se apoiou sobre os dois tentáculos, os membros inferiores se dobraram e para seu espanto, ele ficou numa ridícula posição vertical. Ele se moveu, abriu a porta da despensa e se encaminhou para se juntar àquela espécie terrível. Era isso o que mais o aterrorizava. Foi cambaleando até a cozinha, viu os dois adultos gigantes numa mesa, com suas esferas superiores cheias de cavidades e saliências. A mulher disse:
"Sente aí e tome café, meu filho. O chefe ligou perguntando se não ia trabalhar".
Então Gregor Sendor olhou a comida, disse "sim" e sentou para comer. Era algo corriqueiro e familiar a insetos e homens, uma evidência de que não eram tão diferentes.
Rick tem um bar no Rio

Rick entendia de mulheres. Mais, entendia as mulheres. Era o que pensava. Por isso não casou. Não queria mulher adorável, triste. Não que o homem a entristeça. O casamento, a rotina, extermina baratas e deusas. Um solitário sofre. Mas quando sofre acha um bar e um copo amigo para afogar as mágoas. E, no caso de Rick, era fácil: era dono do bar, com um pianista japonês chamado Tanaka, que tocava Apaixone-se querida donzela. Na decepção, já estava no pronto-socorro. Mas Rick esqueceu tudo isso quando conheceu Ingrid.
Sempre há uma mulher que são todas as mulheres do mundo. Meiga, doce, bela. Maria, Joana, Ilsa. Espanhola, francesa, sueca. Era Ingrid. De Blumenau. O velho Rick, escolado, se apaixonou. Pensou em casamento, filhos e coisas estranhas como o aroma de lingüiça frita e Ingrid fazendo arroz e feijão. O cara decidiu fugir com a moça para o litoral norte de Santa Catarina. E levar o Tanaka, espírito sonoro do bar. Ingrid disse para ele esperar na estação. O Tanaka levou as malas. E Rick de capa, nervoso, fumava, quando começou a chover. Ingrid não apareceu. Rick pegou o ônibus e foi embora com o Tanaka. Na viagem, enquanto o Tanaka roncava, pensou:
"Por que ela fez isto?".
Rick suspeitou:
"Era casada, ficou com o marido".
Dois anos depois, as coisas mudaram. E muito. Rick era dono do Copacabana Bar, em Cabo Frio. Com o Tanaka ao piano. O bar era o mundo. O mundo de Rick. Lá apareciam alemães, franceses, italianos. Ingleses, russos e até argentinos. Quando bêbados, cantavam a Marselhesa. Não havia quem não conhecesse o bar de Rick. A vida estava legal. O cassino, ilegal, dava dinheiro. Um dia, quem entra diáfana e divina no bar de Rick? Ela. Ingrid. Toda de branco: chapéu, vestido, sapato e bolsa brancas. Uma elegância. E vê o Tanaka. Reconhece o japa, na hora.
"Cadê o Rick?"
O japa mente:
"Não sei, dona".
Ela pede para ele tocar uma música, a dos velhos tempos. E ele toca, enquanto o tempo passa. Mas não passa muito, porque Rick ouviu e apareceu uma fera:
"Num falei para não tocar mais isso?".
O japa afinou:
"Foi a dona quem pediu, seu Rick".
E caiu fora. Então Rick descobriu tudo, que Ingrid foi embora para Nova York, casou com um americano e agora estava rica. E infeliz.
Ele:
"Pô, com tantos bares no mundo e você entra logo no meu".
Ingrid chorou. E o coração de Rick amoleceu. Naquela noite, ele bebeu enquanto o Tanaka não parava de tocar a música de Rick e de Ingrid, para o tempo passar. Ele bebeu até secar a garrafa, afogar as mágoas, acabar as lágrimas e quebrar o copo. No dia seguinte, estava com dor de cabeça, mas em ordem. Ingrid apareceu no bar. Disse que o americano ia embora, estava assustado com a mania do carioca matar turista estrangeiro. Principalmente ricaços que tinham iate, como ele. Ingrid estava nervosa.
Ela disse:
"Peça para eu ficar, que eu fico com você".
Rick olhou-a e a imaginou de tailleur branco na frente do fogão do bar. Não colava. Ia dar xabu. Ele foi durão:
"Querida, as coisas estão como devem ser".
Ela apertou a bolsa, uma lágrima escorreu.
Rick pensou:
"Sou um babaca".
E perguntou, por curiosidade:
"Por que não foi, aquele dia, na estação?".
Julgava saber a resposta. Outro. Talvez, o americano.
Ela disse:
"Fiquei escolhendo o vestido. Choveu e tive de trocar por um tailleur. O moço do taxi foi embora".
E ele achava que entendia as mulheres. Enquanto ela se afastava, coube ao Tanaka a frase final:
"Liga, não, seu Rick! A vida é cheia de desencontros".
Rick não gostou e ficou pensando se não estava na hora de se livrar do Tanaka.
"Acho que é o fim de uma bela amizade."
Cadê o piá, que não vem?

Que era levado, era. Que piá não é levado? Lourival gostava do piá, mas do seu jeito. Jeito de macho, que não ia dar moleza para o filho. Um piá forte e saudável virando marica ou folgado, não era o que desejava a ninguém. Era durão com ele. O piá bobeou, castigo. E castigo não é frescura, conversa mole, sermão é na igreja. E tapa deixa marca, perde a vergonha. Tinha de ser coisa para aprender a ser macho. Errou, amarrava o piá de noite no pé de amora e deixava no sereno, para esfriar a moringa. Que o frio de Curitiba, esfria qualquer esquentado. No dia seguinte, o piá tremendo e espirrando, ainda com sono, pedia:
"Pai, deixa eu ir para a cama?".
Lourival mandava o piá tomar leite quente e ir para a aula. Na aula, o piá dormia. A professora engrossava, se era para dormir, por que não ficou em casa? Além disso, piá com olho fundo era sinal de noitada. Com a galera, tomando tubão na praça perto da igreja. A professora não gostava de piá, naquela idade, passando a noite na farra. Deixou de recuperação. Na entrega do boletim, o pai avisou:
"Se der trabalho, me avise. Comigo é no cacete".
O piá ouviu e se apavorou. Implorou para a professora:
"Não fale que durmo, senão me mata".
A professora avaliou:
"Como agir numa dessas?".
No fim da aula, o piá suspirava fundo antes de voltar para a invasão. Invasão é fogo. Todo mundo com medo da prefeitura, do vizinho, do desemprego, da chuva, dos tiros e dos tiras. E Lourival com raiva de homem de tênis, que homem de tênis não engraxa sapato e Lourival não ganhava a grana do dia. Chegava nervoso em casa quando via muito sujeito de tênis na cidade. E o piá que não bancasse o besta! O piá aprendeu a ficar quieto e na escola tentava entrar na linha, do seu jeito.
Apresentava trabalho cantando rap:
"A minha vida não é mole e não sei se vou durar. Aquele rango ninguém engole, se durmo não quero acordar."
A turma ria. Ele, assustado. Que falou de engraçado? Fim de semana, o pai não deixava o piá sair. Má companhia e droga na rua era o que não faltava. Gangue de menino, gangue de menina, quem não se alinhava, entrava no cacete. O pai queria filho durão, não bandido. Domingo o piá ficava na frente do barraco, olhando o pessoal na diversão. Diversão era ir para lá e para cá, tirar uma com a cara dos caras. Morria de vontade de tomar um tubão com a galera. Mas não arredava o pé, para não ficar no pé de amora.
Um domingo, aconteceu: um cara veio na disparada com Opala, entrou na invasão, fez a curva, perdeu o controle e subiu no terreno do barraco. Pegou o piá de cheio. Ele voou longe, foi cair no pé de amora. O cara do Opala ficou grogue, mas viu a sujeira e correu enquanto a multidão se formava, entoando o grito de guerra:
"Lincha, lincha!".
O pai saiu correndo para ver o filho e viu o cara escapar, era um cara de tênis, era o que faltava! O que um cara desses faz na invasão?
Pensou:
"Pegar menina pobre".
O cara sumiu do bairro e da cidade. Não ia dar mole para o azar. O pai pegou o piá e disse:
"Fale comigo, filho!".
Pediu tarde. O piá agora só falava com o cara lá de cima. Dormiu para não acordar mais. E o pai pirou. Parou de ir na cidade, com latas de tinta, escova e caixa de engraxate. Fica na frente do barraco esperando o filho chegar. Quando aparece alguém, pergunta:
"Cadê o piá, que não vem?".
Ninguém responde. Ele não vai ouvir mesmo, agora está num mundo estranho em que o piá ainda volta e ele não amarra mais o piá no pé de amora.
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