Cadê o piá, que não vem?


   Que era levado, era. Que piá não é levado? Lourival gostava do piá, mas do seu jeito. Jeito de macho, que não ia dar moleza para o filho. Um piá forte e saudável virando marica ou folgado, não era o que desejava a ninguém. Era durão com ele. O piá bobeou, castigo. E castigo não é frescura, conversa mole, sermão é na igreja. E tapa deixa marca, perde a vergonha. Tinha de ser coisa para aprender a ser macho. Errou, amarrava o piá de noite no pé de amora e deixava no sereno, para esfriar a moringa. Que o frio de Curitiba, esfria qualquer esquentado. No dia seguinte, o piá tremendo e espirrando, ainda com sono, pedia:

   "Pai, deixa eu ir para a cama?".

   Lourival mandava o piá tomar leite quente e ir para a aula. Na aula, o piá dormia. A professora engrossava, se era para dormir, por que não ficou em casa? Além disso, piá com olho fundo era sinal de noitada. Com a galera, tomando tubão na praça perto da igreja. A professora não gostava de piá, naquela idade, passando a noite na farra. Deixou de recuperação. Na entrega do boletim, o pai avisou:

   "Se der trabalho, me avise. Comigo é no cacete".

   O piá ouviu e se apavorou. Implorou para a professora:

   "Não fale que durmo, senão me mata".

   A professora avaliou:

   "Como agir numa dessas?".

   No fim da aula, o piá suspirava fundo antes de voltar para a invasão. Invasão é fogo. Todo mundo com medo da prefeitura, do vizinho, do desemprego, da chuva, dos tiros e dos tiras. E Lourival com raiva de homem de tênis, que homem de tênis não engraxa sapato e Lourival não ganhava a grana do dia. Chegava nervoso em casa quando via muito sujeito de tênis na cidade. E o piá que não bancasse o besta! O piá aprendeu a ficar quieto e na escola tentava entrar na linha, do seu jeito.

   Apresentava trabalho cantando rap:

   "A minha vida não é mole e não sei se vou durar. Aquele rango ninguém engole, se durmo não quero acordar."

   A turma ria. Ele, assustado. Que falou de engraçado? Fim de semana, o pai não deixava o piá sair. Má companhia e droga na rua era o que não faltava. Gangue de menino, gangue de menina, quem não se alinhava, entrava no cacete. O pai queria filho durão, não bandido. Domingo o piá ficava na frente do barraco, olhando o pessoal na diversão. Diversão era ir para lá e para cá, tirar uma com a cara dos caras. Morria de vontade de tomar um tubão com a galera. Mas não arredava o pé, para não ficar no pé de amora.

   Um domingo, aconteceu: um cara veio na disparada com Opala, entrou na invasão, fez a curva, perdeu o controle e subiu no terreno do barraco. Pegou o piá de cheio. Ele voou longe, foi cair no pé de amora. O cara do Opala ficou grogue, mas viu a sujeira e correu enquanto a multidão se formava, entoando o grito de guerra:

   "Lincha, lincha!".

   O pai saiu correndo para ver o filho e viu o cara escapar, era um cara de tênis, era o que faltava! O que um cara desses faz na invasão?

   Pensou:

   "Pegar menina pobre".

   O cara sumiu do bairro e da cidade. Não ia dar mole para o azar. O pai pegou o piá e disse:

  "Fale comigo, filho!".

   Pediu tarde. O piá agora só falava com o cara lá de cima. Dormiu para não acordar mais. E o pai pirou. Parou de ir na cidade, com latas de tinta, escova e caixa de engraxate. Fica na frente do barraco esperando o filho chegar. Quando aparece alguém, pergunta:

   "Cadê o piá, que não vem?".

   Ninguém responde. Ele não vai ouvir mesmo, agora está num mundo estranho em que o piá ainda volta e ele não amarra mais o piá no pé de amora.

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